Por Dr. Petrus Raulino

Depressão e inflamação parecem caminhar juntas. Alguns perfis de pacientes deprimidos apresentam maiores níveis de citocinas. Pesquisas apontam que a administração de citocinas pode, por si só, causar depressão em modelos animais.

As citocinas são proteínas pró-inflamatórias mensageiras do sistema imunológico. Muitos estudos reportam níveis aumentados de citocinas e seus receptores no sangue periférico e líquido cerebroespinhal de pacientes com transtorno depressivo maior.

Além disso, diversos estudos têm demonstrado que pacientes com transtorno depressivo maior apresentam elevações de concentrações no sangue periférico de substâncias pró-inflmatórias: proteínas de fase aguda, quimiocinas, moléculas de adesão e mediadores inflamatórios tais como prostaglandinas.

Variantes genéticas chamadas polimorfismos parecem influenciar a ocorrência de ativação imunológica e depressão.

Há muitas pesquisas que sugerem aumento da produção de proteínas pró-inflamatórias por células da glia no cérebro de pacientes deprimidos.

Há vários tipos de células da glia: astrócitos, oligondendrócitos, células de Schwann, células ependimárias e células microgliais. As células da glia são células não neuronais do sistema nervoso central que proporcionam suporte e nutrição aos neurônios.

As células microgliais são as menores células da glia. Elas possuem corpo celular alongado com muitos prolongamentos curtos e extremamente ramificados.

Um estudo desenvolvido na Suécia pela Linköping University e publicado na revista científica Immunity forneceu mais uma evidência que sugere que as células microgliais podem exercer um papel importante na expressão do humor.

As células microgliais fazem a vigilância imunológica ativa do tecido cerebral e da medula espinhal. Elas são ativadas em várias doenças neurológicas e contribuem para o desenvolvimento de transtornos afetivos, incluindo o transtorno depressivo maior.

De acordo com pesquisas prévias, os processos neuroinflamatórios também desempenham um papel no desenvolvimento da depressão, e isto levou os pesquisadores a examinar se as células microgliais estão envolvidas na regulação do humor durante a neuroinflamação.

Para investigar se as células microgliais são um elo biológico importante entre o sistema imunológico e o humor, os pesquisadores investigaram o que acontece quando as células microgliais são inibidas.

O estudo realizado em camundongos demonstrou que quando as células microgliais não estavam disponíveis para ativação os camundongos não se sentiam mal, mesmo quando apresentavam inflamação. Mas quando estavam ativadas, os camundongos apresentavam aversão e humor negativo.

Estudos com manipulação de células microgliais em cérebros vivos possui impedimentos óbvios para execução em humanos. Entretanto, apesar dos achados do estudo não poderem ser extrapolados para humanos, servem para fundamentar a hipótese de que o mecanismo também possa ocorrer nos mesmos.

Outras pesquisas são necessárias para demonstrar que o mecanismo biológico descrito no estudo funciona da mesma maneira em humanos. Se for o caso, novos alvos terapêuticos podem ser desenvolvidos a partir de futuras pesquisas.

Esta é apenas mais uma peça do enorme quebra-cabeça sobre as bases biológicas que dão lastro à atividade mental.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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